Violência obstétrica: a prática de procedimentos desnecessários como violação de Direitos Humanos e naturalização da agressão

Autores

Palavras-chave:

Direitos, Violência, Parto, Naturalização

Resumo

Este artigo analisa as evidências presentes na literatura acerca da violência obstétrica e dos procedimentos desnecessários realizados em parturientes, os quais violam frontalmente os direitos humanos e podem apresentar graves repercussões jurídicas. O objetivo geral é analisar como a prática de procedimentos medicamente desnecessários configura violência obstétrica e viola direitos humanos, evidenciando a tensão existente entre a proteção normativa e a naturalização dessas agressões no ambiente de saúde. Para tanto, a metodologia adotada consiste em uma revisão integrativa da literatura, na qual foram analisados 17 artigos, compondo a amostra do estudo. A pesquisa foi realizada por meio da base de dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), incluindo textos nos idiomas português, inglês e espanhol. Os resultados da pesquisa indicam uma violação sistêmica e silenciada de direitos garantidos nacional e internacionalmente. Tal cenário é legitimado pelo discurso biomédico corporativista e atravessado por preconceitos interseccionais de gênero, raça e classe. Conclui-se ser urgente a ampliação dos debates públicos sobre a institucionalização da violência, além da promoção de uma educação perinatal de qualidade, como ferramentas indispensáveis para garantir a autonomia feminina e fomentar políticas de responsabilização.

Biografia do Autor

  • Nicole Rensi Medeiros, Universidade Federal de Santa Catarina

    Graduada em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina e residente jurídica no Tribunal de Contas de Santa Catarina. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/9817626561979712. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-0425-7405. E-mail: nicole.rensi.m@gmail.com.

Referências

ARGENTINA, Lei nº 25.929, de 17 de setembro de 2004. Establécese que las obras sociales regidas por leyes nacionales y las entidades de medicina prepaga deberán brindar obligatoriamente determinadas prestaciones relacionadas con el embarazo, el trabajo de parto, el parto y el postparto, incorporándose las mismas al Programa Médico Obligatorio. Derechos de los padres y de la persona recién nacida. Buenos Aires: Moodle USP, 2019. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/mod/resource/view.php?id=2698514. Acesso em 25 set. 2024.

BRANDÃO, Tamires Maria Neves; DE MELLO, Maria Clara Andrade. Violência Obstétrica: a dor que tem cor e gênero. Revista Mosaico, v. 13, n. 1, p. 43–54, 2022. Disponível em: https://editora.univassouras.edu.br/index.php/RM/article/view/2996. Acesso em: 28 set. 2024.

BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Medidas de Prevenção e Critérios Diagnósticos de Infecções Puerperais em Parto Vaginal e Cirurgia Cesariana. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: http://antigo.anvisa.gov.br/documents/33852/3507912/Caderno+8+-+Medidas+de+Preven%C3%A7%C3%A3o+e+Crit%C3%A9rios+Diagn%C3%B3sticos+de+Infec%C3%A7%C3%B5es+Puerperais+em+Parto+Vaginal+e+Cirurgia+Cesariana/08dee73e-ffef-433f-8fb8-c5f7fc8053a0. Acesso em: 27 set. 2024.

BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2024]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao.htm. Acesso em: 24 set. 2024.

BRASIL. Decreto n ° 4.377, de 13 de setembro de 2002. Promulga a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, de 1979, e revoga o Decreto no 89.460, de 20 de março de 1984. Brasília: Presidência da República, 23 set. 2002. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2002/d4377.htm. Acesso em: 25 set. 2024.

BRASIL. Lei n. 11.108, de 7 de abril de 2005. Altera a Lei n. 8.080, de 19 de setembro de 1990, para garantir às parturientes o direito à presença de acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, no âmbito do Sistema Único de Saúde. Brasília: Presidência da República, 05 abr. 2005. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11108.htm. Acesso em: 25 set. 2024.

BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Brasília: Presidência da República, [2024]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 25 set. 2024.

BRASIL. Ministério da Saúde. Parto, aborto e puerpério: assistência humanizada à mulher. Brasília: Ministério da Saúde, 2001. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cd04_13.pdf. Acesso em: 28 set. 2024.

BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Humanização. Brasília, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_humanizacao_pnh_folheto.pdf. Acesso em: 28 set. 2024.

BRASIL. Ministério da Saúde. Posicionamento oficial do Ministério da Saúde sobre o termo “violência obstétrica”. Brasília, 2019. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/797-posicionamento-oficial-do-ministerio-da-saude-sobre-o-termo-violencia-obstetrica. Acesso em: 28 set. 2024.

BRASIL. Ministério da Saúde. Programa de humanização no pré-natal e nascimento: informações para gestores e técnicos. Secretaria de Políticas de Saúde - Área Técnica da Saúde da Mulher. Brasília, 2000. Disponível em:

https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/biblio-935040. Acesso em: 28 set. 2024.

BRITO, A. R.; FONTELES JUNIOR, J. A. C. de M.; GIMENES, N. C. de S.; MEIRELES, R. P.; NECY, S. de L. R.; MAC-CULLOCH, S. E. A.; SILVA, J. M. L. da; LEAL, A. C.; SANTOS, C. C. G. The perception of pregnant women about humanized childbirth and obstetric violence: experience report. Research, Society and Development, [S. l.], v. 9, n. 7, e934975086, 2020. DOI: 10.33448/rsd-v9i7.5086. Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/5086. Acesso em: 28 set. 2024.

CARVALHO, B. F. et al. Violência obstétrica: fatos relatados na prática e os impactos na vida da mulher. Revista Eletrônica Acervo Saúde, [S. l.], v. 13, n. 8, e8610, 2021. Disponível em: https://acervomais.com.br/index.php/saude/article/view/8610. Acesso em: 27 set. 2024.

CARVALHO, E.; TOSTA, G.; SOARES, L.; MOREIRA, N. N.; ROZÁRIO, K. da S. S. da S.; TAVARES, P. P. C. Conhecimento de enfermeiros sobre violência obstétrica: uma revisão integrativa. Brazilian Journal of Development, [S. l.], v. 9, n. 4, p. 13370–13382, 2023. DOI: 10.34117/bjdv9n4-055. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BRJD/article/view/58865. Acesso em: 28 set. 2024.

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (CFM). Nota à imprensa e à população. p. 1-2. Brasília, 2019. Disponível em: https://portal.cfm.org.br/images/PDF/nota-violencia-obstetrica.pdf. Acesso em: 28 set. 2024.

D'OLIVEIRA, A. F. P. L., DINIZ, C. S. G., & SCHRAIBER, L. B. Violence against women in health care institutions: an emerging problem. The Lancet, [S. l.], v. 359, n. 9318, p. 1681-1685, 2002. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0140673602085926?via%3Dihu. Acesso em: 26 set. 2024.

DA SILVA, Rafael Antunes et al. A atuação do enfermeiro no parto humanizado e na luta contra violência obstétrica. Brazilian Journal of Development, Curitiba, v. 7, n. 6, p. 60010-60029, 2021. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.

php/BRJD/article/view/31492/pdf. Acesso em: 26 set. 2024.

DE MELO RIBEIRO, L.; SOUZA, L. G. de .; SILVA, W. T. da. Obstetric violence: a public health issue and the violation of fundamental rights of women. Research, Society and Development, [S. l.], v. 11, n. 14, e331111436321, 2022. DOI: 10.33448/rsd-v11i14.36321. Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/36321. Acesso em: 27 set. 2024.

DE SOUZA, M. X.; MOREIRA, M. A.; SUTO, C. S. S. As práticas assistenciais desenvolvidas às mulheres no ciclo gravídico-puerperal: a materialidade da violência obstétrica. Revista Contemporânea, [S. l.], v. 3, n. 9, p. 14788 e 14798, 2023. DOI: 10.56083/RCV3N9-072. Disponível em: https://ojs.revistacontemporanea.com/ojs/index.php/home/article/view/1469. Acesso em: 27 set. 2024.

DUARTE, Ana Clara Jácome; GOMES, Nayara Andressa Taborda. Violência obstétrica: análise da violação dos direitos da parturiente e a responsabilidade civil dos profissionais e das instituições de saúde. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, [S. l.], v. 9, n. 10, p. 2165–2181, 2023. DOI: 10.51891/rease.v9i10.11790. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/11790. Acesso em: 26 set. 2024.

ERCOLE, F. F.; MELO, L. S. de; ALCOFORADO, C. L. G. C. Revisão integrativa versus revisão sistemática. REME-Revista Mineira de Enfermagem, [S. l.], v. 18, n. 1, 2014. DOI: 10.35699/reme.v18i1.50174. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/reme/article/view/50174. Acesso em: 30 set. 2024.

FRANCO, Luciele Mariel. MACHADO, Isadora Vier. Brasil em trabalho de parto: um estudo sobre a violência obstétrica. In: CAMARDELO, A. M. P. et al (Org.). Contornos de opressão: história passada e presente das mulheres. 2. ed. Caxias do Sul: Educs, 2016. p. 95-96. Disponível em: https://www.ucs.br/site/midia/arquivos/ebook-contornos_2.pdf. Acesso em: 26 set. 2024.

LAGE, Leandro Rodrigues; CAL, Danila; SILVA, Bárbara Tuanni Veloso da. Corpo e poder: as condições de vulnerabilidade da mulher mãe no debate midiático sobre o parto. Cadernos Pagu, [S. l.], n. 59, e205915, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/cpa/a/MVTRYnBjkzVRd3yCVLgz5kx/?lang=pt. Acesso em: 21 set. 2024.

MAIA, Yasmim da Silva. Violência obstétrica nas maternidades: análise à luz dos direitos humanos e consequências jurídicas. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, [S. l.], v. 9, n. 11, p. 1862–1875, 2023. DOI: 10.51891/rease.v9i11.12483. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/12483. Acesso em: 25 set. 2024.

MARQUES, Silvia Badim. Violência obstétrica no Brasil: um conceito em construção para a garantia do direito integral à saúde das mulheres. Cadernos Ibero-Americanos de Direito Sanitário, [S. l.], v. 9, n. 1, p. 97–119, 2020. DOI: 10.17566/ciads.v9i1.585. Disponível em: https://www.cadernos.prodisa.fiocruz.br/index.php/cadernos/article/view/585. Acesso em: 24 set. 2024.

MELO, J. S. de; BRUM, E. H. M. de; SILVA, J. V. dos S.; PANJWANI, C. M. B. R. G.; FERREIRA, S. M. S.; BARBOSA , K. G. N. .; RIBEIRO, M. C. Postpartum women’s reports on experiences of obstetric violence: A qualitative study. Research, Society and Development, [S. l.], v. 10, n. 8, p. 4-5, 2021. DOI: 10.33448/rsd-v10i8.17081. Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/17081. Acesso em: 27 set. 2024.

MÜLLER, Águeda. La salud, un derecho humano. In: AIZENBERG, Marina (Org.). El derecho de la salud e los derechos humanos. ed. 1. Buenos Aires, Argentina: La Ley, 2014. p. 15-73. Disponível em: <http://www.derecho.uba.ar/publicaciones/libros/pdf/estudios-acerca-del-derecho-de-la-salud/estudios-derecho-de-salud-marisa-aizenberg.pdf>. Acesso em: 24 set. 2024.

NASCIMENTO, Maria Nepomuceno do; BOTELHO, Daniela Garcia. Violência obstétrica: uma análise sob o prisma da violação dos direitos fundamentais da mulher. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, [S. l.], v. 8, n. 7, p. 641–661, 2022. DOI: 10.51891/rease.v8i7.6333. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/6333. Acesso em: 24 set. 2024.

OLIVEIRA, P. J. de A. L.; KAWASAKI, B. F. S.; MATTOS , L. C. de A. N.; DE GUSMÃO LÔBO, E. A.; DE MELO, E. L. P.; CAMILO , M. V. L.; FRANCO, E. de S.; BARROS FILHO, P. B. da S.; DA SILVA, V. S.; DA SILVA, B. G.; BELIANI, E. Violência obstétrica: os desafios da saúde pública no contexto da saúde materno-infantil. Caderno Pedagógico, [S. l.], v. 20, n. 8, p. 3022–3033, 2023. DOI: 10.54033/cadpedv20n8-001. Disponível em: https://ojs.studiespublicacoes.com.br/ojs/index.php/cadped/article/view/1978. Acesso em: 27 set. 2024.

PAIVA, A. M. G. Representações sociais da violência obstétrica para puérperas e profissionais da saúde: análise fatorial de correspondência. Cogitare Enfermagem. [S. l.], v. 27, p. 8-10, 2022. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/cogitare/article/view/75198. Acesso em: 27 set. 2024.

PEREIRA, Francinni Ferreira; PAIVA, Jaqueline de Kassia Ribeiro de. Violência obstétrica e a responsabilidade criminal no Brasil. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, [S. l.], v. 9, n. 10, p. 1382–1404, 2023. DOI: 10.51891/rease.v9i10.11755. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/11755. Acesso em: 25 set. 2024.

RIOS, C. C.; SILVA JÚNIOR, F. da. Prática educativa como estratégia de enfrentamento da violência obstétrica. Revista Pindorama, [S. l.], v. 11, n. 1, p. 202-215, 2020. DOI: 10.55847/pindorama.v11i1.831. Disponível em: https://publicacoes.ifba.edu.br/Pindorama/article/view/831. Acesso em: 29 set. 2024.

SANTANA, Jullyane Braga de. Violência obstétrica: uma forma de violação aos direitos fundamentais das mulheres. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, ed. 06, vol. 05, p. 68-88, 2021. ISSN: 2448-0959. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/lei/violacao-aos-direitos. Acesso em: 10 mai. 2024.

SANTOS, Bharbhara Farias dos; FRANÇA, Lara Nascimento; WANDEKOKEN, Kallen Dettmann et al. Violência obstétrica frente ao abortamento em um hospital de referência em Vitória/ES, Brasil. Revista Brasileira de Pesquisa em Saúde/Brazilian Journal of Health Research, v. 24, n. 2, p. 7–14, 2022. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/rbps/article/view/35795. Acesso em: 28 set. 2024.

Publicado

2026-09-11

Como Citar

Violência obstétrica: a prática de procedimentos desnecessários como violação de Direitos Humanos e naturalização da agressão. Revista Avant, Florianópolis, v. 10, n. 1, p. 180–198, 2026. Disponível em: https://ojs.sites.ufsc.br/index.php/avant/article/view/8886. Acesso em: 15 set. 2026.