Inteligência Artificial e Educação: Colonialismo de Dados, Ética e Justiça Algorítmica em Perspectiva Crítica
Palavras-chave:
inteligência artificial; educação; justiça algorítmica; colonialismo de dados; ética digital.Resumo
Este trabalho analisa o uso da inteligência artificial (IA) na educação brasileira a partir de uma perspectiva crítica, tendo como eixos os conceitos de colonialismo de dados[1], justiça algorítmica[2] e ética digital[3]. O estudo parte do reconhecimento de que a incorporação dessas tecnologias no cotidiano escolar não ocorre de forma neutra, mas atravessada por disputas políticas, epistemológicas e econômicas. O objetivo é investigar em que medida princípios éticos e discussões sobre justiça informacional podem subsidiar práticas educacionais mais conscientes diante do avanço da IA. A pergunta central que orienta a pesquisa é: como os princípios éticos e as críticas ao colonialismo de dados podem contribuir para o uso crítico da IA na educação? A metodologia adotada é qualitativa, com enfoque crítico-decolonial, combinando revisão bibliográfica (Avelino e Silva, 2022; Mohamed, Png e Isaac, 2020) e análise documental de marcos regulatórios e orientações internacionais, como a Lei Geral de Proteção de Dados e as diretrizes da UNESCO. A fundamentação teórica articula os debates sobre soberania digital, justiça algorítmica e uso crítico, evidenciando que o uso descontextualizado e acrítico da IA tende a aprofundar desigualdades históricas. Conclui-se que é possível reverter esse cenário a partir de práticas fundamentadas em princípios ético-políticos, como a regulação específica para a educação, a formação docente e a inserção do letramento digital nos currículos escolares.
[1] “O colonialismo de dados é uma forma de apropriação de recursos baseada na captura e exploração da vida humana em forma de dados. Essa apropriação se dá sem que os indivíduos tenham controle ou autonomia sobre os dados que produzem, configurando uma nova fase de expropriação, agora centrada na informação” (COULDRY; MEJÍAS, 2019, p.7).
[2] Justiça algorítmica é um conceito que emerge diante da crescente influência de sistemas automatizados na tomada de decisões que afetam diretamente a vida das pessoas. De modo geral, ela se refere à necessidade de garantir que os algoritmos sejam desenvolvidos, aplicados e monitorados com base em princípios éticos, de equidade, inclusão e transparência.
[3] Ética digital é um campo que investiga os princípios e valores que devem orientar o uso responsável das tecnologias digitais especialmente no que diz respeito aos impactos sociais, políticos e morais da inteligência artificial, da coleta de dados, da automação e da vida em ambientes virtuais.
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