Os dilemas da construção de um ponto de vista periférico sobre a crise da modernidade
Uma reflexão sobre o pensamento crítico brasileiro
Palavras-chave:
crítica da modernidade, pensamento brasileiro, teoria crítica, crises, cosmopolíticaResumo
Neste artigo, investigo a importância de construir uma perspectiva periférica sobre a modernidade, suas crises e seu potencial. Após a crítica ao universalismo eurocêntrico e a problematização da “injustiça epistêmica”, proponho um percurso bastante específico pelo pensamento crítico brasileiro, analisando as condições de possibilidade de uma abordagem crítica descentralizada e descolonizada da modernidade, a qual ofereceria vantagens heurísticas e críticas em relação à perspectiva eurocêntrica. Para tanto, analiso como a tradição dialética brasileira, especialmente através de Paulo Arantes, formula uma crítica do capitalismo ao inverter a temporalidade do progresso moderno, revelando a periferia como antecipação do futuro capitalista. Destaco também a crítica “extramoderna” da modernidade por pensadores indígenas brasileiros, como Davi Kopenawa, que contrastam a visão destrutiva moderna da natureza com a perspectiva indígena. No entanto, argumento que é necessário adotar um ponto de vista interno à modernidade para ver seu potencial de abertura para a alteridade, especialmente em face da crise ecológica global. Concluo explorando o modernismo estético brasileiro, em particular a Antropofagia de Oswald de Andrade, como uma perspectiva que fortalece a dimensão criativa e não-eurocêntrica do “projeto moderno”, ou mesmo transmoderno nos termos de Dussel, em resposta aos desafios contemporâneos à teoria crítica.
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