Animismo e multinaturalismo ameríndio

Reflexões sobre a relação natureza/cultura e a luta indígena em tempos de crise climática

Autores

  • Gustavo Cunha Bezerra Universidade Estadual da Paraíba

Palavras-chave:

antropologia, ontologias indígenas, virada ontológica

Resumo

Diante do contexto de crise climática ameaçador, as reflexões sobre os modos de vida dos povos ameríndios ganham maior espaço no debate público. Lideranças indígenas, como David Kopenawa e Ailton Krenak, tornaram-se referências importantes na luta pela preservação dos ambientes naturais. No domínio acadêmico, antropólogos e filósofos da denominada “virada ontológica” possuem um discurso alinhado com as cosmovisões ameríndias e buscam apreender as formas de existência dos indígenas não mais através de um olhar que se julga privilegiado (do cientista que analisa de fora seu objeto), mas sim a partir das próprias ontologias dos povos originários. O pensamento radicalmente diferente dos ameríndios passa a ser visto, assim, como uma ontologia diversa daquela do ocidente moderno. Na concepção animista de Philippe Descola, essa diferença é marcada pela não separação entre natureza e cultura, que se contrapõe a objetificação da natureza operada pela ciência moderna. Outro antropólogo da virada ontológica, Viveiros de Castro, defende o multinaturalismo perspectivista em oposição à natureza única do multiculturalismo. Por fim, buscando promover o vínculo com as diversas cosmovisões ameríndias, a fim de encontrar formas de escapar das armadilhas do cientificismo, Tim Ingold sustenta uma antropologia movida pela ética do cuidado.

Referências

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Publicado

2026-04-23

Edição

Seção

V Colóquio Nacional e IV Colóquio Internacional de Pesquisa em Filosofia