O problema da consciência entre Sartre e Merlau-Ponty

Diego Luiz Warmling, Renato dos Santos

Resumo


Das querelas de Sartre e Merleau-Ponty, delimitaremos a nadificação ontológica, contrastando-a ao projeto de uma consciência encarnada que não só atualiza a distinção entre “em-si” e “para-si”, mas encontra na percepção uma via pela qual as atitudes deliberativas são codependentes. Posto o problema da intencionalidade, para Sartre a consciência, além de suscitar um acesso ao Ser (ontologia), só pode ser o que é enquanto for consciência livre e posicional de algo. Vazia, ela é o “para-si” que, perante a realidade objetiva, possui um poder nulificante. Diante do Ser, ela é o Nada: o não-ser, o vazio, a liberdade que surge da negação do em-si quando, por atos interrogativos, transforma seu agir mundano em escolha existencial. Assim, ontologicamente falando, a consciência tanto dá significação ao ser enquanto objeto, quanto tende a tornar-se o único princípio constituinte do mundo; ideia esta que Merleau-Ponty atualiza. Com efeito, visto que o corpo é veículo de ser-no-mundo, em Merleau-Ponty o homem não é nem coisa, nem consciência puros. Aquém da dualidade do “em-si” e do “para-si”, delimita-se aqui a soberania da consciência sartriana para, disto, indicar um horizonte pelo qual os posicionamentos téticos expressam engajamentos de ser coabitados por outrem. Sensível entre sensíveis, o homem não é pura negatividade, mas dimensão que, encarnada, não se distancia de si para dizer sobre si ou projetar-se entre as coisas. Portanto, enquanto Sartre nos condena à vacuidade da consciência, Merleau-Ponty o atualiza, sugerindo: se, fenomenologicamente, Sartre suscita o inacabamento necessário à existência humana, metafisicamente, toma a mundaneidade como resultado de um ato deliberativo. Alegando que a consciência encarnada está sempre em situação, Merleau-Ponty assegura que somos concomitantemente autônomos e determinados, visto que nossa conduta só existe pelos olhos de outrem.


Palavras-chave


Consciência, Nadificação, Outrem, Sartre, Merleau-Ponty

Texto completo:

PDF

Referências


CHAUI, M. Experiência do pensamento: ensaios sobre a obra de Merleau-Ponty. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

DARTIGUES, A. La fenomenología. 2. ed. Barcelona: Herder, 1975.

DUPOND, P. Vocabulário de Merleau-Ponty. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

GILES, T. História do existencialismo e da fenomenologia. São Paulo: E.P.U.: EDUSP, 1975a. 1v.

_______. História do existencialismo e da fenomenologia. São Paulo: E.P.U.: EDUSP, 1975b. 2v.

_______. Crítica fenomenológica da psicologia experimental em Merleau-Ponty. Petrópolis: Vozes, 1979.

HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 2006.

MATTHEWS, E. Compreender Merleau-Ponty. Petrópolis: Vozes, 2010.

MERLEAU-PONTY, M. A estrutura do comportamento. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

_________. Fenomenologia da percepção. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

________. L’institution, la passivité: notes de cours au Collége de France (1954-1955). Paris: Belin, 2003.

_________. O visível e o invisível. 4ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2014.

MORAVIA, S. Sartre. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

SARTRE, J. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Petrópolis: Vozes, 2014a.

________. Entre quatro paredes. São Paulo: Abril Cultural, 1977.

________. O Existencialismo é um Humanismo. Petrópolis: Vozes, 2014b

SCHNEIDER, D. Sartre e a psicologia clínica. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2011.

SILVA, C. A. F. A carnalidade da reflexão: ipseidade e alteridade em Merleau-Ponty. São Leopoldo: Nova Harmonia, 2009.

WAELHENS, A. Uma Filosofia da Ambiguidade. In: MERLEAU-PONTY, M. A estrutura do comportamento. São Paulo: Martins Fontes, 2006. pp. I-XXV.


Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Direitos autorais 2020 Diego Luiz Warmling, Renato dos Santos

URL da licença: http://creativecommons.org/licenses/by-nc/3.0/deed.pt

PERI - Revista de Filosofia
ISSN 2175-1811, Florianópolis,
Santa Catarina, Brasil
e-mail: revistaperi@contato.ufsc.br